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MANUAL DE DOUTRINAS DA REFORMA Volume I


GRAÇA, FÉ, JUSTIFICAÇÃO, JUSTIÇA & LEI

Prefácio

A princípio, se faz necessário trazer a lume o esforço de Satanás em anular a Lei, em assim sendo, tece rede de teses infundadas perseguindo o supracitado objetivo. Focados no mesmo propósito, ingente maioria de evangélicos, maestros da doutrina Dispensacionalista entrincheiram-se no texto: "Porquanto a Lei foi dada por intermédio de Moisés; mas a graça e a verdade vieram através de Jesus Cristo." João 1:17. Visam anular a lei, exaltando a graça. Em verdade, a lei foi codificada por Deus, entregue a Israel por intermédio de Moisés, enquanto a graça representa um lapso temporal para Cristo santificar o pecador imputando sua justiça, habilitando-o amar e obedecer a lei. Destarte, os dispensacionalistas cometem grave erro, convergindo na linha de colisão com as Escrituras, atacam a Lei de Deus entrincheirados na graça.

Em sua ótica, a Lei pertence a dispensação do Velho Testamento, abolida por Cristo na cruz. A graça, por sua vez, pertence ao Novo Testamento, desvinculada da Lei. Diante da tese levantada, se faz necessário inquirir, existia graça no Velho Testamento? Perquirindo as Escrituras é possível vislumbrar a resposta nos textos paulinos: "Porquanto, não foi pela Lei que Abraão, ou sua descendência, recebeu a promessa de que ele havia de ser o herdeiro do mundo; ao contrário, foi pela justiça da fé. Pois se os que vivem pela Lei são herdeiros, a fé não tem valor e a promessa é nula. Porque a Lei produz a ira; mas onde não há Lei também não pode haver transgressão. Por esse motivo, a promessa procede da fé, para que seja de acordo com a graça, a fim de que a promessa seja garantida a toda a descendência de Abraão, não somente a que é da Lei, mas igualmente a que é da fé que Abraão teve. Ele, portanto, é o pai de todos nós!" Romanos 4:13-16. Existia graça no Velho Testamento, o aludido texto deita por terra o gélido argumento dispensacionalista, negando atuação da graça no Velho Testamento. A promessa procede da graça mediante fé, Leia-se, Deus prometeu a Abraão e descendência um lapso de tempo, graça, para o Salvador restaurar a semelhança divina emprestando sua justiça habilitando-os guardarem a Lei. O método da salvação pela graça mediante fé, não foi exclusividade do Novo Testamento, como visto, o áureo método imperou no Velho Testamento. Ademais, o renomado apóstolo descortina Israel tentando obter salvação pelo legalismo fincados na lei, obras e mérito. O arcabouço da salvação firma-se na promessa do Messias justificar o pecador mediante fé e suprir as deficiências humanas imputando sua justiça pela graça, santificando-o, tanto no Velho como Novo Testamento.

Como visto, a graça não é peculiaridade do Novo Testamento, nesse sentido se manifestou Tito: "A graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens." Tito 2:11, do Velho e Novo Testamento, haja vista, a impossibilidade de adquirir salvação sustentada por mérito humano, obediência legalista da lei ou cerimonialismo. A salvação é pela graça mediante a fé, ancorada na promessa divina, ratificada pelo sangue expiatório de Cristo nosso Salvador. Se no Antigo Testamento não existisse graça, a salvação seria por obras da Lei, tremendo absurdo confrontando as Escrituras, negando os méritos do Salvador.


Graça


Graça, Concertos & Lei (O presente capítulo toma como prisma o livro Patriarcas e Profetas de Ellen White)

Traduzido do hebreu. chen e no gego charis, significa favor ou bondade, mormente, não merecido ou ganho. Acerca do tema, Paulo se destaca apresentando ao mundo a doutrina da salvação pela graça: "Porquanto, pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus." Efésios 2:8. Em sua tese, a salvação não resulta de obediência legalista da Lei, nacionalidade, raça ou cor, mas, do favor divino distribuído livremente mediante a fé: "Portanto, havendo sido justificados pela fé, temos paz com Deus, por meio do nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem obtivemos pleno acesso pela fé a esta graça na qual agora estamos firmados, e nos gloriamos na confiança plena da glória de Deus." Romanos 5:1-2. No texto, o festejado apostolo ilustra as bênçãos do Evangelho, acesso a graça mediante fé. Como cediço, o pecado abriu um abismo separando o homem de Deus, a graça, cultivada pela fé, aproxima o pecador do Altíssimo reconciliado pela justiça de Cristo, leia-se, o sangue expiatório de Cristo sarou as feridas abertas pelo pecado de Adão, reaproximando criatura e Criador, com direito a salvação pela cobertura do manto da justiça de Cristo.

Por fim, é forçoso concluir, assim como a lei não tem condão de salvar, a graça, por si só, não pode resolver o problema do pecado. Na cruz Cristo não eliminou a lei, sua vigência é necessária para apontar pecados, auxiliando o pecador não permanecer pecando, entrementes, foi necessário Cristo pagar o preço da transgressão em lugar do injusto, contaminado pecador: "Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna por intermédio de Cristo Jesus, nosso Senhor!" Romanos 6:23. Na cruz, Cristo, simplesmente cumpriu a sentença de morte atendendo as reivindicações da Lei.

A princípio o Senhor escolheu, exaltou e abençoou Israel para obedecer sua Lei, visando revelar aos habitantes da terra o plano de salvação e não para se tornarem exclusivos recipientes de suas bênçãos pelo legalismo insano.

Diante do exposto, insta tecer alguns comentários acerca dos concertos revelados nas Escrituras. Assim, a Bíblia descortina com meridiana clareza a existência de duas leis, uma imutável, eterna e outra temporária, provisória, de igual modo, há dois pactos, novo concerto e velho concerto. Como visto alhures, o concerto da graça foi firmado no Éden após queda de Adão, fundamentado na promessa divina: "Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o descendente dela; porquanto, este te ferirá a cabeça, e tu lhe picarás o calcanhar." Gênesis 3:15. Na aludida promessa, a semente da mulher, Cristo, fere a cabeça da serpente, Satanás, alcançando vitória contra o astuto inimigo, favorecendo sua igreja, estendendo o Plano de Salvação a todos os homens. Segundo Ellen White:

A todos os homens este concerto oferecia perdão, e a graça auxiliadora de Deus para futura obediência mediante a fé em Cristo. Prometia-lhe também vida eterna sob condição de fidelidade para a lei de Deus. Assim receberam os patriarcas a esperança de salvação.
WHITE, Ellen Golden. Patriarcas e Profetas. 9. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1989. pág. 384-385

No primeiro concerto firmado, o Senhor ofereceu ao homem perdão e graça auxiliadora, leia-se, promessa de Cristo auxiliar o pecador imputando sua justiça mediante a fé para obediência da Lei, com esse enfoque os patriarcas foram abençoados obedecendo ao Senhor fincados na promessa. Insta repisar, existia graça no Antigo Testamento.

Nesse diapasão, o supracitado concerto foi renovado com Abraão, ancorado na promessa: "Por intermédio dos teus inúmeros descendentes serão abençoadas todas as nações da terra, porquanto tu me obedeceste!" Gênesis 22:18. A exuberante promessa apontava para Cristo, esta verdade axiomática foi perfeitamente compreendida por Abraão: "E a Escritura, prevendo que Deus iria justificar os não-judeus pela fé, anunciou com antecedência as boas novas a Abraão: Por teu intermédio, todas as nações serão abençoadas... Desse mesmo modo, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. A Escritura não declara: E aos seus descendentes, como se referindo a muitos, mas exclusivamente: “Ao seu descendente”, transmitindo a informação de que se trata de uma só pessoa, isto é, Cristo." Gálatas 3:8;16, creu Abraão na augusta promessa, confiando na obra redentora do Messias para perdão dos pecadores. A supracitada fé foi atribuída a Abraão como justiça.

Ainda no mesmo contexto, diga-se, o concerto com Abraão vinculava obediência da Lei sustentada pela graça auxiliadora do Messias. O Senhor apareceu a Abraão e disse: "Quando Abrão completou noventa e nove anos, o SENHOR lhe apareceu e declarou: Eu Sou o Deus Todo-Poderoso, anda na minha presença e sê íntegro!
Eis que estabeleço a minha Aliança entre mim e ti, e multiplicarei grandemente a tua descendência."
Gênesis 17:1-2. Cônscio do plano divino, Abrão desfrutou em penumbra a graça auxiliadora do messias, esbanjando confiança externou fidelidade e manteve o concerto divino: "porque Abraão me obedeceu, guardou minhas ordenanças, meus mandamentos, meus princípios e minhas leis!" Gênesis 26:5. Diante da confiança, fidelidade e obediência a sua Lei, o Senhor confirmou aliança com Abraão e sua numerosa descendência em Cristo: "Estabelecerei minha Aliança entre mim e ti, e teus futuros descendentes, de geração em geração, uma Aliança perpétua, para ser o teu Deus e o Deus te tua raça, depois de ti." Gênesis 17:7. Obriga-se frisar, a princípio o supracitado concerto foi firmado com Adão e renovado com Abraão, contudo, exigia ratificação: "De fato, conforme a Lei, quase todas as coisas são purificadas com sangue, e sem derramamento de sangue não pode haver absolvição!" Hebreus 9:22, leia-se, remissão é ato ou ação de perdoar, redimi, obra redentora ratificada pelo precioso sangue de Cristo uma única vez. Nesse sentido se manifesta Ellen White:

Existira pela promessa de Deus desde que se fez a primeira indicação de redenção; fora aceito pela fé; contudo, ao ser ratificado por Cristo, é chamado um novo concerto. A lei de Deus foi a base deste concerto, que era simplesmente uma disposição destinada a levar os homens de novo à harmonia com a vontade divina, colocando-os onde poderiam obedecer à lei de Deus.
WHITE, Ellen Golden. Patriarcas e Profetas. 9. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1989. pág. 385

Frise-se, o concerto firmado com Adão, renovado com Abraão e ratificado por Cristo foi chamado novo concerto, alicerçado na fé, mediante graça auxiliadora de Cristo para obedecer a Lei. Em assim sendo, a promessa de perdão, obediência pela justiça do Messias e salvação, foi um pacto eterno, estendido a Abraão e seus descendentes em Cristo.

Vencido o primeiro pacto, se faz necessário tecer comentários acerca do outro pacto, conhecido como velho concerto, firmado entre Deus e Israel no Sinai, ratificado pelo sangue de um sacrifício:

O concerto abraâmico foi ratificado pelo sangue de Cristo, e é chamado o segundo ou novo concerto, porque o sangue pelo qual foi selado foi vertido depois do sangue do primeiro concerto. Que o novo concerto era válido nos dias de Abraão, evidencia-se do fato de que foi então confirmado tanto pela promessa como pelo juramento de Deus, duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta. Hebreus 6:18.
WHITE, Ellen Golden. Patriarcas e Profetas. 9. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1989. pág. 385

Diante do exposto, merece questionar, se o concerto abraâmico continha promessa de redenção, porque firmar outro concerto no Sinai? Em resposta a irmã White, exortou:

Em seu cativeiro, o povo em grande parte perdera o conhecimento de Deus e os princípios do concerto abraâmico. Libertando-os do Egito, Deus procurou revelar-lhes Seu poder e misericórdia, a fim de que fossem levados a amá-lo e confiar nEle. Trouxe-os ao Mar Vermelho – onde, perseguidos pelos egípcios, parecia impossível escaparem – a fim de que se compadecessem de seu completo desemparo, e da necessidade de auxilio divino; e então lhes operou o livramento. Assim eles se encheram de amor e gratidão para com Deus, e de confiança em Seu poder para os ajudar. Ele os liga a Si na qualidade de seu Libertador do cativeiro temporal.
WHITE, Ellen Golden. Patriarcas e Profetas. 9. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1989. pág. 386

O livramento do cativeiro egípcio foi paliativo, o Senhor precisava libertar Israel do cativeiro da idolatria, negligência e corrupção. No Egito, os hebreus perderam a salutar concepção da santidade de Deus, da malsinada pecaminosidade de seus corações e incapacidade, de por si mesmos, obedecerem a Lei, compelindo o Senhor gravar em suas mentes a dependência e necessidade do Salvador.

Sustentando braço forte, o Senhor utilizou Moisés como mediador. Conduzindo o povo ao Sinai manifestou sua glória, codificou o decálogo e entregou ao povo com promessa de grandes bênçãos sob condição de obediência, verbis: "Agora, se ouvirdes a minha voz e obedecerdes à minha aliança, sereis como meu tesouro pessoal dentre todas as nações, ainda que toda a terra seja minha propriedade. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. Estas são as palavras que dirás aos filhos de Israel." Êxodo 19:5-6. O povo não percebeu a impossibilidade de obedecerem a Lei sem a justiça do Messias, desconheciam a malignidade do coração nutrido de natureza pecaminosa. Entrementes, acreditando na conduta humana firmaram concerto com Deus, ancorados na própria justiça, disseram: "Em seguida, leu o Livro da Aliança e o leu para o povo; e eles responderam: "Tudo o que Yahweh ordenou, nós o faremos e obedeceremos." Êxodo 24:7. Alavancando sentimento de zelo, Israel testemunhou a proclamação da Lei no Sinai com manifesta glória e majestade do Altíssimo e temeram aterrorizados, contudo, passada algumas semanas, violaram o concerto firmado no Sinai prostrando-se diante do bezerro de ouro.

Não poderiam esperar o favor de Deus mediante um concerto que tinham violado; e agora, vendo sua índole pecaminosa e necessidade de perdão, foram levados a sentir que necessitavam do Salvador revelado no concerto abraâmico e prefigurado nas ofertas sacrificais. Agora, pela fé e amor, uniram-se a Deus como seu libertador do cativeiro do pecado. Estavam então, preparados para apreciar as bênçãos do novo concerto.
WHITE, Ellen Golden. Patriarcas e Profetas. 9. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1989. pág. 386-387

O novo concerto transcendia a mera obediência formalista, concebia perdão de pecadores e restauração da semelhança divina sob o manto da justiça do Messias, habilitando-os obedecerem a Lei.

Nesse compasso, indaga-se, quais as diferenças ente os dois concertos? Segundo a pena de Ellen White:

As condições do velho concerto eram: Obedece e vive – cumprindo-os [estatutos e preceitos] o homem, viverá por eles (Ezequiel 20:11; Levítico 18:5); mas maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei. Deuteronômio 27:26. O novo concerto foi estabelecido com melhores promessas: promessas de perdão dos pecados, e da graça de Deus para renovar o coração, e levá-lo à harmonia com os princípios da lei de Deus. Este é o concerto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a Minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração... Porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais Me lembrarei dos seus pecados. Jeremias 31:33-34.
WHITE, Ellen Golden. Patriarcas e Profetas. 9. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1989. pág. 387

É forçoso concluir, a Lei não foi revogada, mudada nem transformada em barreira, muro de separação, pelo contrário, foi confirmada sua vigência. Mudou a forma de obedecer, removida a obediência pela singela tábua de pedra, foi cravada no coração pelo Espírito Santo, leia-se, a graça de Deus estendeu-se a todos os homens, um período para o Salvador imputar sua justiça em seus corações, renovando-o, mediante a fé habilitou-os guardarem a Lei por amor, na grandeza de sua santidade.

Impotentes diante dos pecados cometidos no Sinai, Israel rompeu a aliança, o concerto com Deus, celebraram culto idolatra adorando malsinado bezerro de ouro, destarte, se faz necessário o pecador sentir a necessidade do Messias cravar a lei em seu coração, declinando do legalismo aceitando a justiça de Cristo:

A mesma lei que fora gravada em tábuas de pedra, é escrita pelo Espírito Santo nas tábuas do coração. Em vez de cuidarmos em estabelecer nossa própria justiça, aceitamos a justiça de Cristo. Seu sangue expia os nossos pecados. Sua obediência é aceita em nosso favor. Então o coração renovado pelo Espírito Santo produzirá os frutos do Espírito. Mediante a graça de Cristo viveremos em obediência à lei de Deus, escrita em nosso coração. Tendo o Espírito de Cristo, andaremos como ele andou. Pelo profeta Ele declarou a respeito de Si mesmo: Deleito-Me em fazer a Tua vontade, ó Deus Meu; sim, a Tua lei está dentro do meu coração. Salmos 40:8. E, quando esteve entre os homens, disse: O Pai não Me tem deixado só, porque. Eu faço sempre o que lhe agrada. S. João 8:29.
WHITE, Ellen Golden. Patriarcas e Profetas. 9. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1989. pág. 387)

Como exposto, a Lei não foi revogada, a mesma Lei escrita pelo dedo de Deus, entregue a Israel no Sinai, é cravada pelo Espirito Santo no coração dos servos de Deus. Leia-se, o Senhor mudou a forma de obedecer a Lei. Mediante a graça auxiliadora de Cristo, o pecador recebe justiça emprestada para obedecer a Lei, rompendo com obras meritórias.

Por fim, Ellen White cita texto de Paulo trazendo lume acerca da relação ente fé e Lei no novo concerto, em suas apresentações o festejado apóstolo diz:

Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei. Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, - ou seja, ela não podia justificar o homem, porque em sua natureza pecaminosa este não a poderia guardar- Deus, enviando o Seu filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne, para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Romanos 5:1; 3:31; 8:3-4.
WHITE, Ellen Golden. Patriarcas e Profetas. 9. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1989. pág. 387-388

De forma sucinta Paulo iluminou o tema em comento, a justificação se efetiva pela fé, contudo, a fé não anulou a Lei. Segundo exortação paulina, a lei não pode justificar o homem, sob o manto da natureza pecaminosa era impossível o pecador obedecer a Lei, necessitando tomar a justiça do Salvador emprestada para se santificar e obedecer a Lei por amor. Não olvidando, a função da Lei é apontar, revelar o pecado, para o crente, andar segundo o Espírito e não pecar. A lei proclamada no Sinai é a mesma Lei do Novo Testamento, ajudando Paulo conhecer o pecado e não cobiçar. A lei é imutável, mudou a forma de obedecer, não mais, pela justiça própria, formalismo, legalismo, mas, pela justiça de Cristo, por amor e santificação.

Ademais, é forçoso indagar, quem vai ser justificado pela fé, quem obedece a Lei ou quem ignora, transgredindo? A resposta encontra-se nas Escrituras: "Pois, diante de Deus, não são os que simplesmente ouvem a Lei considerados justos; mas sim, os que obedecem à Lei, estes serão declarados justos." Romanos 2:13. Somente o pecador justificado, santificado pela justiça de Cristo é capaz de praticar, obedecer a Lei fincado na fé. Noutro giro o simples conhecedor, ou praticante da Lei sustentado em mero formalismo, legalismo ou cerimônias, despido da justiça do Salvador não será justificado, nem mesmo pela fé. Leia-se, o pecador justificado pela fé toma emprestado a justiça de Cristo atendendo exigência da Lei via santificação, obra do Espírito Santo ou imputação da justiça de Cristo. Os cristãos não podem cometer os erros do judaísmo. Os judeus ouviam a lei regularmente nas Sinagogas: "Porque desde os tempos antigos, Moisés é pregado em todas as cidades, bem como é lido nas sinagogas em todos os dias de sábado." Atos 15:21, alimentavam esperança de justificação ancorados na mera posse das Escrituras, contudo, o velado conhecimento extraído era insuficiente para santificar. Em assim sendo, perderam a condição de povo eleito recusando a graça auxiliadora do Messias, leia-se, desprezaram a santificação mediante a justiça de Cristo, fincados em sua própria justiça, trapo de imundícia para Deus, tentaram o impossível, obedecer a Lei revestidos de natureza pecaminosa.


Graça & Justiça de Cristo

A princípio é forçoso indagar, qual a finalidade da graça? É um lapso de tempo destinado a restauração humana, leia-se, Cristo tomou lugar do pecador, pagou o preço exigido pela sentença de morte na cruz, eliminando a condenação, não a lei, em assim sendo, cumpriu a promessa firmada com Abraão de restaurar a semelhança divina. O pecador penitente mediante a graça será restaurado ao status de Adão antes da queda, renovado pelo Espírito de Cristo: "Quanto à antiga maneira de viver, fostes instruídos a vos despirdes do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a serdes renovados no vosso modo de raciocinar e a vos revestirdes do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade proveniente da Verdade." Efésios 4:22-24. Vislumbra-se duas naturezas no supracitado texto, velho homem dominado pelos desejos da carne, natureza pecaminosa. Novo homem revestido da justiça de Cristo rendendo frutos do Espírito, santificado, habilitado amar e obedecer a Lei.

Na mesma toada, Ellen White se manifesta expondo o Plano de Redenção, segundo a renomada escritora:

No plano de restaurar nos homens a Imagem Divina, foi estipulado que o Espírito Santo atuasse na mente humana e fosse, como a presença de Cristo, uma influência modeladora no caráter humano. Aceitando a verdade os homens também se tornam recipientes da graça de Cristo e dedicam sua santificada capacidade humana à obra em que Cristo se empenhou – os homens tornam-se cooperadores de Deus.
WHITE, Ellen Golden. E Recebereis Poder. 1. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1999. pág. 47

Na visão de Ellen White, a graça se fundamenta no lapso de tempo dedicado a restaurar a imagem divina no homem mediante a fé. Envolto pela justiça de Cristo, o pecador se santifica e coopera com a obra reconciliado com Deus.

Diante do exposto, conclui-se, focado em restaurar a perdida imagem divina, Cristo empresta sua justiça santificando o pecador: "Entretanto, nesses últimos tempos, se manifestou uma justiça proveniente de Deus, independente da Lei, mas da qual testemunham a Lei e os Profetas; isto é, a justiça de Deus, por intermédio da fé em Jesus Cristo para todas as pessoas que crêem. Porquanto não há distinção. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação por meio da fé, pelo seu sangue, proclamando a evidência da sua justiça. Por sua misericórdia, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que deposita toda a sua fé em Jesus." Romanos 3:21-26. Lei, legalismo, formalismo ou cerimonialismo não tem o condão de salvar, justificar ou reconciliar com Deus. A salvação é pela graça mediante a fé vinculada a promessas de Cristo erguer o perdido pecador com sua justiça. A função da Lei é apontar o pecado, auxiliando o penitente pecador, revestido do manto da justiça de Cristo evitar pecar ou transgredir a Lei. O Plano de Redenção se fundamenta em restaurar a imagem ou semelhança divina, perdida por Adão, segundo a teoria da Convergência de Irineu.

De fato, o Senhor formulou o Plano de Redenção visando recuperar a semelhança divina cunhando o caráter de Cristo no homem, santificando-o:

Antes que o mundo fosse feito, estava combinado que a divindade de Cristo fosse envolta na humanidade.
WHITE, Ellen Golden. Mensagens Escolhidas, V.1. 2. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1985. pág. 250

Nesse viés, a graça é um lapso de tempo, pautado no Plano de Redenção, para Cristo recuperar o homem, envolvendo a humanidade dos cristãos com sua divindade recuperando a semelhança divina, tornando o homem semelhante a Adão antes do pecado:

Assim Cristo deu a humanidade uma existência provinda dele mesmo. Levar a humanidade a Cristo, levar a raça caída à unidade com a divindade, tal é a obra da redenção. Cristo tomou a natureza humana a fim de que pudessem os homens ser um com Ele, como Ele é com o Pai, a fim de que Deus possa amar o homem como ama o seu filho unigênito, e os homens possam ser participantes da natureza divina, e ser completos nele.
O Espírito Santo, que procede do unigênito Filho de Deus, une o instrumento humano, corpo, alma e espírito à perfeita natureza divino-humana de Cristo. Esta união é representada pela união da videira e seus ramos. O homem finito une-se a varonilidade de Cristo. Por meio da fé a natureza humana assimila a natureza de Cristo. Somos feitos um com Deus em Cristo.
WHITE, Ellen Golden. Mensagens Escolhidas, V.1. 2. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1985. pág. 251

Assimilando o caráter de Cristo, o pecador é refrigerado pelo Espírito Santo:

O Espírito Santo é o sopro da vida espiritual na alma. A comunicação do Espírito é a transmissão da vida de Cristo. Reveste o que O recebe com os atributos de Cristo. Antes de os discípulos poderem cumprir seus deveres oficiais em relação com a igreja, Cristo soprou sobre eles Seu Espírito.
WHITE, Ellen Golden. O Desejado de Todas as Nações, 14.ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1986. pág. 769

O pecador recebe os dons da cruz ou atributos de Cristo capacitando-o testemunhar obedecendo a Lei, sã doutrina e estatutos mediante a graça regeneradora de Cristo:

Quer que seus servos dêem testemunho de que, mediante Sua graça, podem os homens possuir caráter semelhante ao de Cristo e regozijar-se na certeza de seu grande amor.
WHITE, Ellen Golden. O Desejado de Todas as Nações, 14.ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1986. pág. 790

De acordo com o aludido texto, os homens podem recuperar a semelhança divina cunhando o caráter de Cristo ao absorver sua justiça, isto é graça, favor imerecido.

Com esse enfoque, é de bom alvitre evidenciar a exortação de Jesus: "Buscai, assim, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas." Mateus 6:33. Buscar a justiça de Cristo equivale a restaurar a semelhança divina desperdiçada por Adão. Em assim sendo concluído o processo de justificação pela fé (perdão dos pecados passados), se faz necessário o cristão buscar em primeiro lugar a justiça de Cristo para se santificar, de posse da divina natureza, o Senhor acrescenta os dons necessário para desenvolvimento espiritual. Envolto com o manto da justiça de Cristo, o pecador é santificado recebendo os dons da cruz, refletindo o caráter de Cristo:

O Salvador anela manifestar sua graça e estampar seu caráter no mundo inteiro. Esta é sua comprada possessão, e deseja tornar os homens livres, puros e santos.
WHITE, Ellen Golden. O Desejado de Todas as Nações, 14.ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1986. pág. 791

A graça se efetiva quando o Salvador imputar sua justiça no coração do pecador. Cunhando seu caráter, santifica o pecador e habilita obedecer a lei por amor adicionando os dons oriundos da cruz. Concluindo, graça é a mão de Deus alcançando a Terra. Fé é a mão do homem se estendendo para agarrar a mão de Deus (NEUFELD, Don F. Dicionário Bíblico Adventista do Sétimo Dia. V. 8. 1. ed. Ed. Casa publicadora Brasileira, 2016. pág. 576). A graça é despejada sobre os homens, todos têm direito de estender a mão em busca da justificação, santificação e salvação, contudo, depende do livre arbítrio abrir o coração e confiar (fé) na promessa divina, Cristo imputar sua justiça restaurando a semelhança divina.


O que é Justiça

É penoso descortinar a vida religiosa dos Fariseus legalistas do passado e presente, perseguindo a justiça alicerçada na obediência formalista da Lei, debruçados em justiça própria, méritos humanos. Formalismo, legalismo e cerimonialismo não são sinônimo de salvação. Vislumbra-se com frequência fanatismo, hipocrisia e justiça própria (confiança nas obras), grassarem (espalham-se) copiosamente dentro e fora dos grupos de Reforma, sob manto de santidade, totalmente alheios a verdade da justiça de Cristo, único fio condutor capaz de auxiliar o pecador na senda da obediência. Muitas destas almas sinceras, são induzidas por Satanás a desligarem torneira, lâmpadas e geladeiras aos Sábados, tirar sandálias dos pés nos cultos, usar túnicas, orar de olhos abertos, comparar bicicleta com jumento, usar roupas brancas, como requisito de santidade e justiça. A esse respeito, Jesus falou: "Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus." Mateus 5:20. A justiça dos fariseus assentava-se em seus méritos, justiça própria, obediência formal da Lei, anulando a graça de Deus: "Não torno inútil a Graça de Deus; porquanto, se a justiça pudesse ser estabelecida pela Lei, então, Cristo teria morrido em vão." Gálatas 2:21. Adeptos fanáticos, semelhante aos ascéticos anacoretas, caminham na linha de colisão com ensinamentos de Jesus, a justiça é pela graça, mediante justificação pela fé, nesse sentido se manifesta Ellen White:

Não é por meio de penosas lutas ou fatigante lida, nem de dádiva ou sacrifícios, que alcançamos a justiça; ela é porém, gratuitamente dada a toda alma que dela tem fome e sede. 'Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tem dinheiro, vinde, comprai, e comei... sem dinheiro e sem preço'. 'Sua justiça...vem de mim, diz o Senhor'. 'E este será o nome com que o nomearão; Senhor justiça nossa'. Isa 55:1; 54:17; Jer. 23:6.
WHITE, Ellen Golden. O Maior Discurso de Cristo. 16. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 2014. pág. 18

Como exposto alhures, a função da Lei é apontar o pecado e não fornecer justiça. Unicamente Cristo pode emprestar justiça ao pecador: "E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da Lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé." Filipenses 3:9. Se fosse possível o pecador obter justiça, restaurar a semelhança divina perdida por Adão mediante esforço próprio, obediência formal da Lei, fincado unicamente em sua fé e fanatismo religioso, Jesus não precisaria morrer. Em verdade, quem busca justiça por obras, mérito humano, caiu da graça, para tais pessoas Jesus morreu em vão, basta exercitar o comportamento humano para alcançar a sonhada justiça.

Em verdade a fantasia do pecador obter justiça por obediência formal, mérito, conduta humana, não passa de sofisma satânico para reter as almas em pecado, longe da salvação. Antes do pecado Adão era feliz, alimentado pela justiça divina, capaz de amar e obedecer a Lei:

Cristo somente é a 'expressa imagem' do pai (hebreus 1:3); mas o homem foi formado à semelhança de Deus. Sua natureza estava em harmonia com a vontade de Deus. A mente era capaz de compreender as coisas divinas. As afeições eram puras, os apetites e paixões estavam sob o domínio da razão. Ele era santo e feliz, tendo a imagem de Deus, e estando em perfeita obediência à sua vontade.
WHITE, Ellen Golden. Patriarcas e Profetas. 9. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1989. pág. 28

O pecado desfigurou a semelhança divina, familiarizando o coração de Adão com o mal. A justiça, natureza divina fonte da nobre conduta esvaiu-se, substituída pela natureza pecaminosa, inclinada a satisfação própria. A famigerada natureza impedia Adão obedecer a Lei como antes, exigindo intervenção divina por meio da graça. Quem poderia interver em favor do pecador e restituir a justiça perdida, fio condutor ligando o pecador com Deus e perfeita obediência a lei? O profeta responde de forma cirúrgica: "Eis que vem dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um renovo justo; e, sendo rei, reinará e precederá sabiamente, executando o juízo e a justiça na terra.
Nos seus dias será salvo, e Israel habitará seguro; e este é o nome de que será chamado: SENHOR JUSTIÇA NOSSA."
Jeremias 23:5-6. O pecador perdeu a justiça divina, somente Cristo, a expressa imagem do Pai, um ser perfeito poderia morrer na cruz pagando o preço do pecado e restituir a justiça, natureza divina perdida por Adão, capacitando o pecador amar e obedecer outra vez com perfeição. Segundo Ellen White, a semelhança divina, justiça, perdida por Adão vai ser restituída por Cristo:

No princípio o homem foi criado à semelhança de Deus, não somente no caráter, mas na forma e aspecto. O pecado desfigurou e quase obliterou a imagem divina; mas Cristo veio para restaurar aquilo que se havia perdido.
WHITE, Ellen Golden. O Grande Conflito. 30. ed. Ed. Casa publicadora Brasileira, 1985. pág. 696

Como se pode notar, a justiça é emprestada por Jesus. Quando a justiça é imputada, o pecador muda os sentimentos, o caráter é enobrecido, semelhante ao caráter de Cristo, trata-se da santificação, com a justiça recuperada o homem manifesta atitude nobre, justa, capaz de resistir tentações e obedecer a Lei por amor. O pecador, por si só, não é capaz de produzir nem armazenar justiça. Não pode ser cultivada separado de Cristo.

Por fim Ellen White define, conceitua justiça, em sua ótica:

Justiça é santidade, semelhança com Deus e 'Deus é amor'. I João 4:16. É conformidade com a Lei de Deus; pois, todos os teus mandamentos são justiça'.(Sal. 119:172) 'e o cumprimento da Lei é o amor' (Rom.13:10). Justiça é amor, e o amor é a luz e a vida de Deus. A justiça de Deus se acha concretizada em Cristo. Recebemos a justiça recebendo-o a ele.
WHITE, Ellen Golden. O Maior Discurso de Cristo. 16. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 2014. pág. 18

Sim justiça é santidade, única forma do pecador recuperar a semelhança divina, é tomando justiça emprestada de Jesus. Resumindo, quando Deus formou Adão pôs sua natureza divina, Adão foi alma vivente, justo, perfeito obediente, graças a justiça divina. A queda de Adão resultou na perda da natureza divina, substituída pela natureza pecaminosa originada por Satanás. A graça foi estendida, na cruz, Cristo pagou o preço do pecado, morreu no lugar do pecador restituindo a natureza divina. A justiça de Cristo, é a imputação de seu Espírito no coração do pecador, recuperando a semelhança divina, cunhando seu caráter no homem. O pecador revestido da natureza pecaminosa rende frutos do pecado, inclinado ao mal, egoísta, satisfaz-se transgredindo a lei, desnudo da justiça divina, não empunha forças para obedecer a Lei. Noutro giro coberto com o manto da justiça de Cristo, produz frutos do espírito, habilitado obedecer a lei, resistir tentação, aborrecer o mundo e seus prazeres. Não confundir justiça de Cristo com justificação. A justificação pela fé, depende da graça, justificação é perdão de pecados passados. Justificado, limpo de pecados cometidos, Cristo imputa sua justiça santificando o pecador habilitando-o a obedecer a Lei evitando pecar, enquanto o penitente pecador comunicar, alimentar a justiça de Cristo no coração permanecerá santo. A justiça de Cristo, natureza divina, é o fio condutor santificando, aperfeiçoando o caráter humano danificado pelo pecado.


Fé & Confiança

A princípio se faz necessário conceituar fé. Do hebreu emum; emunah; do grego pistis. A fé se desenvolve mediante uso. Não pode ser ensinada, forçada ou mercadejada. O objeto da fé se traduz em confiança em Cristo, nas promessas divinas e no sistema de princípios religiosos (doutrina), desenvolvendo virtudes, ou dons da cruz oriundas de Cristo, colhendo frutos, práticas ou exercício da fé, tornando o pecador espiritual mediante imputação da natureza divina.

Visando fixar os conceitos levantados, insta ilustrar uma parábola: Um renomado equilibrista promove evento se deslocando de um monte a outro sobre um cabo de aço há mil metros de altura empurrando um carro de mão. Você acredita no êxito do equilibrista? Ele é capaz de cruzar o monte, mil metros de altura empurrando um carro de Mão? Se você responder, sim ele é capaz, você creu, todavia, isto é fé? Se o equilibrista se voltar para você e perguntar, muito bem você creu, então entre no carro de mão e vamos atravessar juntos, você entraria no carro de mão? Se você responder não tenho coragem, não é fé, você não confia, embora crendo no êxito do equilibrista, contudo, caso responda, sim e entrar no carro de mão atravessando o abismo, trata-se de fé, você confiou na capacidade do equilibrista. Desse modo é perfeitamente percebível a margem diferenciando crer de confiar, fé não é apenas crer, sim confiar. Existe diferença abissal entre crer e fé:

Quando falamos em fé, devemos ter presente uma distinção. Existe uma espécie de crença que é inteiramente diversa da fé. Diz a Bíblia que também os demônios creem e estremecem; mas isto não é fé.
WHITE, Ellen Golden. Caminho a Cristo. 27. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1989. pág. 63

Ademais é possível crer sem confiar, contudo, jamais confiar sem crer. Fé esmerada na confiança, produzindo submissão à vontade divina renova o coração à semelhança divina.

Ainda no mesmo contexto, diga-se, fé genuína empunha lealdade, certeza, confiança em Deus e fidelidade a doutrina, mesmo sem ver. "Ora, a fé é a certeza de que haveremos de receber o que esperamos, e a prova daquilo que não podemos ver. Porquanto foi mediante a fé que os antigos receberam bom testemunho." Hebreus 11:1-2. Trata-se de confiança nas coisas esperadas, prova das coisas invisíveis, a fé arquiteta o impossível, inclusive transportar montes.

A fé pode ser conceituada como confiança extrema, obediência isenta de dúvidas ou incertezas: "Pela fé Abraão, quando convocado, obedeceu e dirigiu-se a um lugar que no futuro receberia como herança, embora não soubesse para onde estava sendo dirigido." Hebreus 11:8. A fé se arrima na confiança em Deus e cumprimento de suas promessas, trata-se de pré-requisito para aproximação com Deus: "Portanto, andamos sempre confiantes, conscientes de que enquanto presentes nesse corpo, estamos distantes do Senhor." II Coríntios 5:6. Mediante a fé o homem é justificado por Cristo: "Concluímos, portanto, que o ser humano é justificado pela fé, independentemente da obediência à Lei!" Romanos 3:28. Justificado, o pecador se torna participante da justiça de Cristo pela fé iniciando o processo de santificação: "e ser encontrado nele, não tendo por minha a justiça que procede da Lei, mas sim a que é outorgada por Deus mediante a fé." Filipenses 3:9. A graça permite ao pecador alimentar esperanças de alcançar justiça de Cristo pela fé, verbis: "Entretanto nós, pelo Espírito mediante a fé, aguardamos a justiça que é nossa esperança." Gálatas 5:5. "Em verdade, sem fé é impossível agradar a Deus; portanto, para qualquer pessoa que dele se aproxima é indispensável crer que Ele é real e que recompensa todos quantos se consagram a Ele." Hebreus 11:6. Quem não tem fé não se aproxima de Deus. Fé, é um dos fundamentos da salvação, confiança na existência do Altíssimo, Deus invisível, mesmo sem vê-lo e no cumprimento de suas promessas. Confiar, sem ver é fundamento máximo da fé.


Justificação

Breve histórico

A princípio se faz necessário tecer augustas linhas acerca da doutrina da justiça de Cristo apresentada por Waggoner e Jones no congresso de Minneapolis em 1888. O Senhor ordenou aos aludidos mensageiros proclamarem a mensagem da Justiça pela fé, visando purificar a igreja, santificando-a para obedecer ao Decálogo e receber chuva Serôdia unindo-se ao Terceiro Anjo no Alto Clamor. De inopino os destemidos pastores obedeceram:

No ano de 1888, a Igreja Adventista do Sétimo Dia recebeu uma mensagem de reavivamento muito clara. Ela foi, nesta hora, chamada a mensagem da Justiça pela Fé. Muitos que naquele tempo a ouviram, honraram-na firmemente, tendo até, durante estes anos todos, a firme convicção e alegre esperança, que esta mensagem um dia seria posta à frente, para poder efetuar a obra de purificação e renovação na igreja, indicada pelo Senhor.
Chr. U. Ger, p. 15. (MEYER, W. Minneápolis 1888. Onde e por que falhamos? Ed. Educativa, 2001. pág. 86

Os Adventistas nominais rejeitaram a poderosa mensagem caindo da fé, a Igreja Remanescente, por seu turno, acolheu, ensinando nos dias atuais em todas suas congregações a poderosa mensagem de reavivamento e reforma. A única forma de despertar a igreja, tolhendo mornidão, frieza, negligência, preguiça e comodismo é pela imputação da justiça de Cristo santificando os irmãos para obedeceram a gloriosa Lei do Senhor. Hoje esta mensagem está à frente do bojo doutrinário desta Igreja. Nos dias dos pioneiros, o Senhor confiou aos dois jovens pastores, uma poderosa mensagem, empunhando poder transformador na igreja e no mundo:

Em Sua grande misericórdia o Senhor enviou uma preciosa mensagem a seu povo por intermédio dos pastores Waggoner e Jones... esta é a mensagem que Deus ordenou que fosse dada ao mundo.
WHITE, Ellen Golden, Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, pág. 91,92

Naquele momento a cúpula dos veteranos líderes adventistas acreditavam na máxima, obedece e vive, fincados no texto: "Aqui está a perseverança dos santos, daqueles que obedecem aos mandamentos de Deus e permanecem fiéis a Jesus." Apocalipse 14:12. Na visão dos Pioneiros, a salvação dependia apenas de formal obediência da Lei, ainda não compreendiam a impossibilidade do pecador obedecer a lei sem a justiça pela fé. Noutro giro, Waggoner, Jones e Ellen White, defendiam a tese da justiça pela fé. A.T. Jones apresentou uma nova interpretação de Apocalipse. 14:12 em dezembro de 1887. Escreveu ele:

A única maneira pela qual podemos harmonizar-nos com a justa Lei de Deus, é pela justiça de Deus, que se obtém pela fé em Jesus Cristo...

Na terceira Mensagem Angélica acha-se incorporada a suprema verdade e a suprema Justiça, ele comparou a suprema verdade aos mandamentos de Deus e a suprema justiça à fé de Jesus.

Em assim sendo, qual conteúdo lustrava a augusta mensagem apresentada por Waggoner e Jones, endossada por Ellen White:

Apresentava a Justificação pela Fé no Fiador; convidava o povo para receber a Justiça de Cristo, que se manifesta na obediência a todos os mandamentos de Deus. ... Esta é a mensagem que Deus manda proclamar ao mundo. É a terceira mensagem angélica que deve ser proclamada com alto clamor e regada como derramamento de seu Espírito Santo em grande medida.
Special Testemonies to Ministers and Gospel Workers, Série A 151; TM 91-92

Diante do exposto, é forçoso afirmar, graça, tempo definido no Plano de Redenção para o povo receber a justiça de Cristo pela fé. Imputada a justiça de Cristo o crente é santificado, o caráter de Cristo é cunhado na mente enobrecendo sentimentos, atitudes, pensamentos e domínio próprio tornando-o santo igual a Lei. Restaurada a semelhança divina, nessa condição, só resta ao penitente pecador obedecer estatuto, preceito e Lei, em suma, a sã doutrina por amor. Todavia, a obediência permanece enquanto a justiça é comunicada, enquanto os ramos receberem da videira (Cristo) sua seiva, ou justiça.

De fato, Ellen White endossou a tese apresentada por Waggoner e Jones. A renomada profetisa observou tratar-se de verdade antiga defendida por Paulo, Lutero e Wesley, perdida de vista no curso do tempo. Em sua ótica, os adventistas precisavam colocar a fé de Jesus no devido lugar. Com efeito, na terceira Mensagem angélica a Lei ocupa posição importante, contudo, é impotente, salvo se a justiça de Cristo for posta ao seu lado para emprestar sua glória ao régio padrão de justiça. Uma confiança completa e perfeita em Jesus imprimirá correta qualidade à experiencia religiosa. À parte disso, a experiencia não vale nada. O serviço é como a oferta de Caim destituída de Cristo.

A luz dos fundamento levantados, vislumbra-se a misericordia divina cair sobre os adventistas em 1888 como chuva regando os vales, empunhando salvadora Mensagem, entremetes, enfrentou ferrenha oposição, a Associação Geral rejeitou, desprezou, ridicularizou a mensagem angélica:

Em 1888 na Conferência Geral realizada em Minneapolis, Minnesota, o anjo de Apocalipse 18 desceu para fazer sua obra, e foi ridicularizado, criticado e rejeitado, e quando a mensagem que ele trouxer novamente, alargar-se num alto clamor, será novamente ridicularizada, criticada e rejeitada pela maioria.
E. G. White in Taking Up a Reproach. Também encontrado em Some History, Some Experience, Some Facts, p. 1 A.T. Jones

Profundamente decepcionada, Ellen White escreveu acerca do lamentável fato:

Vi que Jones e Waggoner tiveram sua contrapartida em Josué e Calebe. Como os filhos de Israel apedrejaram os espias com pedras literais, vós apedrejastes esses irmãos com pedras de sarcasmos e ridículo. Vi que vós voluntariamente rejeitastes o que sabeis ser a verdade. Apenas porque ela era por demais humilhante para a vossa dignidade. Vi alguns de vós em vossas tendas arremedando e fazendo toda a sorte de galhofas desses dois irmãos. Vi também que se tivesse aceito a mensagem deles teríamos estado no reino após dois (1888+2= 1890) anos daquela data, mas agora temos de retornar ao deserto e ficar 40 anos.
E. G. White, escrito em Melbourne, Austrália 09/05/1892

A gravidade de rejeitarem a mensagem divina, gravita em torno de ciúmes, cegueira espiritual por parte de experientes líderes, forçando a igreja retroceder rumo ao Egito. Na visão de Ellen White, a igreja Adventista se encontrava no caminhou de Canaã celestial, a rejeição da Mensagem criou consideráveis paralelos com o povo de Israel. Dá-se por exemplo: O antigo Israel podia ter entrado mais cedo em Canaã. De igual modo, na passagem do século XX, se o povo adventista tivesse permanecido fiel, Cristo poderia ter vindo. Rejeitando áurea Mensagem, a Igreja Adventista retrocedeu ao Egito (mundo) declinando da fé:

Na nossa cegueira e indolência desviamo-nos muito deste caminho. Durante muitos anos falhamos em nos familiarizar com esta verdade divina. Mas, durante todo este tempo, o nosso Senhor, sem interrupção, chamou o Seu povo, para se lembrarem desta parte importante e básica do Evangelho.
Chr. U. ger, p. 15. (MEYER, W. Minneápolis 1888. Onde e por que falhamos? Ed. Educativa, 2001. pág. 86

Na década de 50, a igreja Adventista do sétimo Dia firmou aliança com evangélicos. Atendendo ao acordo, removeram pilares da fé adventista flexibilizando a doutrina do Santuário, visando filiação em grupos ecumênicos dos Estados Unidos com igrejas Evangélicas culminando com apostasia alfa e ômega e consequente rompimento com os céus. Com o malsinado evento, a igreja não apostatou apenas, rompeu os laços com o Senhor, forçando o Soberano do Universo escolher outro povo, segundo seu coração:

Irmãos, se continuardes a ser tão indolentes e egoístas, como estivestes até agora, Deus então passará por vós e aceitará os que são menos egoístas, que procuram menos a honra do mundo e que, como o seu Mestre, não se recusam a sair do acampamento para suportarem a vergonha.
WHITE, Ellen Golden. 5 T 461

Trata-se do povo Remanescente, a última igreja, ancorada na justiça de Cristo proclamará o Alto Clamor unida ao Terceiro Anjo, com efeito, é a Reforma. Qual igreja de Reforma? Em princípio, a Mensagem da Reforma é única, a divisão de grupos foi obra satânica fomentada por sede de poder de homens carnais, contudo, a Igreja de Reforma amparada na justiça de Cristo pela fé, obedecendo a Lei por amor se unirá ao Terceiro Anjo alcançando, finalmente a Canaã espiritual. A chuva serôdia e alto clamor é, segundo a Escritura e Testemunhos, a doutrina da Justiça, ou seja, segundo Justiça. A igreja familiarizada com essa doutrina é a Igreja Remanescente, prolongamento da Igreja do Deserto, doutrina de Antioquia, a verdadeira Igreja de Deus nos últimos dias.

Por fim, não se engane, Satanás moverá céus e terra para frustrar a obra, atropelando a doutrina da Justiça de Cristo:

O inimigo do homem e de Deus não está disposto a permitir que esta verdade (Justificação pela fé) seja claramente apresentada, pois ele sabe que se o povo a receber integralmente, seu poder será quebrado. Se ele conseguir controlar mentes de maneira que a descrença e as trevas se constituam a experiência daqueles que professam ser filhos de Deus, ele conseguirá dominá-los com a tentação.
Review and Herald, 03/09/1889

A verdadeira igreja, empunha as credenciais divinas:

Esta mensagem, tal como foi apresentada, deve ir a toda igreja que pretenda crer na verdade... Queremos ver quem tem apresentado ao mundo as credenciais divinas.
RH 18 março 1890

Da aceitação da Mensagem da justiça de Cristo, depende a igreja Remanescente para receber chuva Serôdia, proclamar Alto Clamor, enfrentar a Angústia de Jacó alcançando a Nova Terra.


Justificação pela Fé

Em verdade, poucas Igrejas de Reforma compreendem claramente o tema em comento. A vital compreensão acerca do tema exige auxilio divino:

Não existe um dentre cem, que compreenda por si mesmo a verdade bíblica sobre este assunto [Justificação pela fé], tão necessário ao nosso bem-estar presente e eterno
Cristo Nossa Justiça, pág. 96

O Senhor abre mente e corações de homens sinceros, chamando atenção para supracitada doutrina da Justificação pela fé habilitando-os na defesa da verdadeira doutrina, tal como foi entregue aos santos. A exemplo da Igreja de Antioquia, Igreja do Deserto, assemelhando-se a Luciano de Antioquia, homem de Deus, beneficiado com dom acima dos outros homens para defender a verdadeira fé, em seus dias.

Vencida as devidas considerações, se faz necessário trazer a lume escritos da lavra de Ellen White, abordando o tema em comento, pergunta a renomada escritora:

Que é justificação pela fé? É a obra de Deus de lançar no pó a glória do homem, e fazer pelo homem aquilo que ele não pode fazer por si mesmo.
WHITE, Ellen Golden, Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, pág. 456

O homem não pode obter perdão por seus méritos, muito menos se santificar, de acordo com ensinamento paulino: "Sendo justificado gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Jesus Cristo. Deus o apresentou como oferta de propiciação, por intermédio da fé no seu sangue. Isto se deu, a fim de exibir a sua própria justiça, porque ele estava perdoando os pecados que ocorreram no passado, enquanto Deus exercia indulgências." Romanos 3:24-25. Somente Cristo podia tomar lugar do pecador, pagar o preço do pecado, perdoar pecados passado (Justificação) mediante a fé, restituindo a justiça perdida (santificação), capacitando obedecer a Lei. Resumindo, Justificação é perdão de pecados passados, nesse sentido se manifesta Ellen White, ao seu viso, a justificação é um perdão absoluto e completo do pecador. Quando o pecador aceita Cristo pela fé, é perdoado. A justiça de Cristo imputada prossegue o processo de santificação, recuperando a semelhança do Criador. Ao se sujeitar a Cristo, o coração se une ao seu, a vontade imerge em sua vontade, o espírito torna-se cativo a ele. Vivemos sua vida. Isto significa estar trajado com as vestes de sua justiça.

Ainda no mesmo contexto, diga-se, Justificação é perdão de pecados passados, limpo da imundice do pecado, a justiça de Cristo tornar o homem justo diante de Deus, semelhante Adão antes da queda:

O caráter de Cristo substituirá o vosso caráter e sereis aceitos diante de Deus como se não houvésseis pecado.
WHITE, Ellen Golden. Caminho a Cristo. 27. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1989. pág. 62

Trata-se do perdão da sentença de morte causada pelo pecado de Adão. Jesus substituiu o pecador arrependido morrendo em seu lugar, emprestando sua justiça restaura a semelhança divina, Leia-se, o caráter de Cristo substituirá o caráter humano, e sereis aceitos diante de Deus exatamente como se não houvésseis pecado, na visão de Ellen White, a justiça de Cristo é aceita em lugar do fracasso humano, e Deus recebe, perdoa e justifica a alma arrependida e crente, trata-a como se fosse justa e a ama como seu filho. Desse modo a fé resulta em justiça imputada, cabendo ao pecador, manter a justiça comunicada, alimentada diariamente..

Por fim é forço concluir, é impossível alcançar justificação por justiça própria, esforço humano, obediência legalista da Lei, muito menos transgredindo a Lei entrincheirado na graça, segundo Ellen White:

Muitos estão perdendo o rumo certo, em consequência de pensar que devem alcançar o céu realizando algo meritório para obter o favor de Deus. Buscam tornar-se melhores por seus próprios esforços. Jamais lograrão êxito.
Cristo nossa Justiça. pág. 115

A justificação, por sua vez, é perdão de pecados passados, Justificado, Jesus troca a justiça do homem (natureza pecaminosa) imputando sua justiça, forçosamente o pecador depende do alimento da justiça de Cristo, semelhante vara ligada a videira:

Ao nos sujeitarmos a Cristo, nosso coração se une ao seu, nossa vontade imerge em sua vontade, nosso espírito torna-se cativo a ele. Vivemos sua vida. Isto é o que significa estar trajado com as vestes de sua justiça.
WHITE, Ellen Golden. Parábolas de Jesus. 8. ed. Ed. Casa Publicadora Brasileira, 1987. pág. 312

A dependência da natureza divina de Cristo, Wesley conceituou de justiça comunicada, necessita de constante alimento, tornando o pecador participante da justiça de Cristo:

É unicamente tornando-nos participantes de sua natureza que recebemos poder para obedecer a seus mandamentos.
Cristo Nossa Justiça. pág. 126

A única forma do pecador obedecer a Lei legitimamente é revestido no manto de justiça de Cristo. Justificado pela graça mediante a fé, santificado pela imputação da justiça de Cristo. Desse modo, Jesus restaura a semelhança divina perdida por Adão, habilitando o pecador amar e obedecer verdadeiramente ao Criador e sua Lei.


Lei

Do hebreu, torah, “direção”, instrução; dath, “regulamento”, lei; do grego nomos, regra, princípio, Lei. No contexto bíblico, Lei significa princípios ou padrão de conduta. A palavra hebraica usualmente traduzida para lei é torah, a vontade revelada de Deus, ou qualquer parte dela.

Função da graça, justificação, fé, justiça e Lei

À guisa de informação, diga-se, a existência da graça é prova contundente da vigência da Lei. A transgressão da lei, pecado, tornou obrigatório a existência da graça, se não houvesse pecado (transgressão da Lei), não precisava da graça. A lei não justifica o pecador, assim como a observância da lei não empunha poder de apagar pecados passado. Essa obra pertence a justificação pela fé. Justificar, apagar pecados passados é outorgado pela graça mediante fé ratificado pelo sangue do Salvador. A lei guia o homem evitando permanecer no pecado após a justificação, assim, para o pecador saber se determinada conduta é ou não pecado, basta consultar a Lei. "Pela lei vem o conhecimento do pecado." Romanos 3:20. Com efeito, não existe pecado sem lei anterior apontando a conduta pecaminosa, no contexto bíblico a norma reveladora do pecado é a Lei Moral dos Dez Mandamentos.

Outro ponto deturpado por evangélicos merece atenção. Trata-se das expressões debaixo da lei e livre da lei. Ao viso dos evangélicos, debaixo da lei significa debaixo da obediência da lei, de outro giro, livres da lei, quer dizer livres da obediência da lei. Em assim sendo, não guardam o Sábado porque estão livres da lei, todavia, afirmam obedecer aos outros nove mandamentos da Lei em flagrante contradição conduzindo sua tese ao esgoto, beirando o ridículo.

De fato, quem busca salvação ancorado em obras da lei ou arraigado em sua fé, caiu da graça, o pecador não pode alcançar salvação por obras meritórias, contudo, santificado pela justiça de Cristo é elevado espiritualmente, equiparando-se a santidade de lei, capaz de obedecê-la. Com esse enfoque, segundo as Escrituras o crente não está debaixo da lei, mas debaixo da graça: "Porquanto o pecado não poderá exercer domínio sobre vós, pois não estais debaixo da Lei, mas debaixo da Graça! Súditos da Justiça pela Graça." Romanos 6:14. A perfeita relação entre lei e graça, não deixa margem para revogar, anular ou abolir a lei. Se faz necessário tecer comentários acerca da expressão "debaixo da lei". Quem está debaixo da lei e quem não está debaixo da lei?

No campo espiritual, a lei foi escrita em tábuas de pedra, posteriormente cravada no coração pelo Espírito Santo cunhando censuras e condenação aos infratores: "Sabemos, todavia, que a Lei é boa, se alguém a usa de forma adequada. De igual modo, sabemos que ela não é feita para os justos, mas para os transgressores e insubmissos, para os perversos e pecadores, para os profanos e irreverentes, para os que matam pai e mãe, para os assassinos." I Timóteo 1:8-9. Ao cobiçoso, ela diz não cobiçaras, desta forma o transgressor está debaixo da condenação da lei, entrementes, o cristão justificado pela fé, coberto pelo manto da justiça de Cristo, santificado a altura da exigência da lei, por certo, obedece a lei por amor, não transgride, portanto, está livre da lei.

Para ilustrar e fixar os conceitos levantados, diga-se, "... a Lei é santa, o mandamento, santo, justo e bom." Romanos 7:12. De outro giro, o homem é inclinado ao mal, por si só, revestido de natureza pecaminosa é incapaz de adquirir espiritualidade equiparando-se a santidade da lei para obedecê-la. Leia-se, para o homem obedecer a lei precisa ser justo e nutrir espiritualidade semelhante a lei. Dá-se por exemplo, o mandamento não cobiçar, o supracitado mandamento jamais será cumprido por obediência legalista ou formal. Eis o motivo da salvação sustentar-se na graça (justiça de Cristo) e não na obediência formalista, obras da lei. Obedecer ao comando normativo não cobiçar, assim como os demais, exige graça, ou imputação da justiça de Cristo santificando o pecador ao impoluto caráter de Cristo adicionados aos dons oriundos da cruz, elevando o pecador espiritualmente a altura da santidade da lei para obedecer. Somente um homem justificado pela fé, santificado, revestido da natureza de Cristo ou semelhança divina, é capaz de dominar os sentimentos resistindo facilmente a cobiça. Assim como, não tem prazer na idolatria, chamar o nome do Senhor em vão, com certeza honra pai e mãe, guarda o sábado espiritualmente, não mata, não rouba, não adultera, não levanta falso testemunha, em suma, obedece a Lei por amor, espiritualmente como ela deve ser obedecida, segundo a visão do Criador. Qualquer obediência despida do padrão apresentado é trapo de imundície para Deus.

Diante do exposto, indaga-se, quais perigo gravitam em torno da obediência da lei? Existem duas formas perigosa de se manifestar acerca da lei. A primeira consiste em buscar salvação ancorado na obra, nos méritos, comportamento humano, tentam o impossível, alcançar salvação pela obediência da lei, ritos e cerimônias gélidas, semelhante ao judaísmo. Ellen White exortou a esse respeito, em sua concepção uma religião legal nunca conduzirá almas a Cristo; as boas obras não compram a salvação; não adquirimos a salvação por nossa obediência; pois a salvação é dom gratuito de Deus obtido pela fé. Outra obra áurea assevera:

A justificação pela graça mediante a fé, é a primeira fase da salvação, e seu fruto é a obediência. Obedecemos, não para seremos salvos pela obediência, mas por estarmos salvos.
BALBACHAS, Alfonsas. Um Novo Mundo. 15. ed. Ed. Missionária a Verdade Presente, pág. 264

Merece atenção a expressão "por estarmos salmos". Evangélicos acreditam estar salvos, entrincheirados na frase; uma vez salvo, sempre salvo, enquanto permanecer salvos, pelo simples fato de professar discipulado e assentar o nome do livro da igreja, acreditam estarem salvos do mundo e do pecado, acima da lei. "Pois a mensagem da cruz é loucura para os que estão sendo destruídos, porém para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus." I Coríntios 1:18. A supracitada tradução king James, "estamos sendo salvos" se coaduna com a realidade. Uma vez salvo, quem recebe justiça de Cristo, (os discípulos receberam no Pentecoste), sempre salvos, exige permanecer revestido pelo manto da justiça divina, enquanto permanecer salvo, caso perca a imputação da justiça de Cristo, cai. Semelhante Adão, cedeu a tentação de Satanás, caiu, perdeu a divina natureza imputada pelo Criador. A graça é um lapso de tempo para cumprimento do Plano de Redenção, Cristo imputar sua justiça no coração do pecador penitente, elevando ao patamar da justiça ou espiritualidade da lei, tornando-o justo capaz de obedecer. Quem não recebeu natureza divina não está salvo, embora com nome assentado no livro da igreja. A maior prova do alegado sustenta-se no fato das igrejas evangélicas acreditarem estarem salvas do mundo, idolatria e pecados, quando na verdade, a vida religiosa exala corrupção, ganância, mentiras, fraudes, idolatria, curvando joelhas ao secularismo, alimentando o rebanho com entretenimento secular. Absorvidos pelo secularismo, romperam com Deus, revogaram a lei e desprezaram a sã doutrina.

O segundo erro, trata da revogação da Lei, na ótica evangélica, Cristo isenta a humanidade da obediência da lei, contudo Cristo desmente a supracitada tese: "Eis que alguém chegou perto de Jesus e consultou-o: Mestre, que poderei fazer de bom para ganhar a vida eterna? Questionou-o Jesus: Por que me perguntas a respeito do que é bom? Há somente um que é bom. Se queres entrar na vida eterna, obedeça aos mandamentos. Ao que ele perguntou: Quais? E Jesus lhe respondeu: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, honra a teu pai e a tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Replicou-lhe o jovem: A tudo isso tenho obedecido. O que ainda me falta? Jesus disse a ele: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me. Ao ouvir essa palavra, o jovem afastou-se pesaroso, pois era dono de muitas riquezas." Mateus 19:16-22. No aludido episódio o jovem deseja vida eterna, Jesus respondeu, é preciso guardar os mandamentos para alcançar salvação, o jovem citou comandos normativos do decálogo, afirmando obedecer a todos. Jesus o pôs a prova, vende teus bens e segue-me. O jovem retirou-se triste, possuía muitos bens. Jesus não fechou a porta da salvação, o jovem preferiu bens perecíveis a seguir o filho de Deus, infringiu os Mandamentos, negando sua afirmação de obedecer todos. Preferiu idolatrar materialismo, cobiçando bens terreno a seguir o Messias. O aludido episódio, expõe o dever de obedecer aos mandamentos para herdar a vida eterna, assim como, fica límpido o fato do homem não obedecer a lei ancorado em justiça própria, legalismo ou cerimonias. Se Cristo, pela graça mediante a fé, imputasse sua justiça no coração do jovem, com efeito, obedeceria aos mandamentos verdadeiramente, abandonaria todos os bens da terra, distribuía aos pobres e seguiria Jesus sem olhar para trás. A exemplo de Abraão, abandonou terra e parentela para seguir ordem divina, ou Jó, perdeu bens, família, ainda assim nunca abandonou o Senhor. Em suma, o jovem não guardava os Mandamentos, sua obediência era legalista. Ignorava a graça auxiliadora de Cristo, imputação de sua justiça para obedecer a Lei.


Conclusão

Evangélicos acreditam na justificação pela fé, amparado pela graça, ignorando maliciosamente a necessidade de reconhecer a lei, apontando o pecado para cessar de pecar. A justificação remove pecado passado, contudo, não é licença para permanecer pecando. Na visão de Paulo, não é pecado obedecer a Lei: "Portanto, que concluiremos? A Lei é pecado? De forma alguma! De fato, eu não teria como saber o que é pecado, a não ser por intermédio da Lei. Porquanto, na realidade, eu não haveria conhecido a cobiça, se primeiro a Lei não tivesse dito: “Não cobiçarás”. Mas o pecado, aproveitando-se da ocasião dada pelo mandamento, provocou em mim todo o tipo de cobiça; porque, onde não há lei, o pecado está morto." Romanos 7:7-8. No teor do texto esculpido, a função da Lei é revelar o pecado, a função da graça é salvar do pecado. Com esse enfoque se faz necessário ilustrar uma parábola para fixar os conteúdos levantados:

Um tanque molhado não pode ser secado pelo sol e vento, a menos que lhe fechemos a torneira. Assim também nós não podemos obter, pela graça, a justificação dos pecados já cometidos, a menos que cessemos de pecar, não mais violando a lei. Somente os que praticam a lei hão de ser justificados (Rom. 3:20) pela graça mediante a fé. O tanque molhado representa na ilustração, o homem carregado de pecados. O sol e o vento são a graça e a fé. A secagem é a justificação; a torneira, a lei; torneira aberta, a transgressão de lei. Torneira fechada, a obediência da lei. A observância da lei moral dos Dez mandamentos não tem por finalidade justificar (tirar pecados já cometidos), mas, evitar continuar no pecado, porque assim como é impossível secarmos um tanque sem lhe fecharmos a torneira, é também, sem cessarmos de pecar, impossível sermos justificados das transgressões já cometidas.
BALBACHAS, Alfonsas. Um Novo Mundo. 15. ed. Ed. Missionária a Verdade Presente, pág. 269

Depois de justificado, a graça não autoriza voltar a pecar. De acordo com as escrituras: "Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?" Romanos 6:1-2. Uma vez justificado, revestido da justiça de Cristo, gozar das benesses da santificação e envergonhar a cruz de Cristo deliberadamente, a palavra adverte: "Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados." Hebreus 10:26. Quem, uma vez justificado das transgressões; pela graça, voltar a transgredir a lei, confirma o provérbio: "Dessa maneira, confirma-se neles o quanto é verdadeiro o provérbio que diz: "O cão volta ao seu vômito" e mais: "A porca lavada volta a revolver-se no lamaçal". II Pedro 2:22. É dever de todo homem justificado obedecer a lei, evitando anular a justificação alcançada e invalidar a graça, retornando ao lamaçal do pecado. É forçoso concluir, a função da graça, tempo oferecido por Deus para restaurar a semelhança divina. Justificação, apagamento de pecados passados. Justiça de Cristo, imputação da natureza divina perdida por Adão santificando o pecador. Fé, confiança na promessa de restaurar o pecador pela justiça de Cristo, por fim, a Lei, empunha a finalidade de apontar, revelar o pecado ajudando o penitente pecador evitar reincidência no pecado com consequente anulação da graça.




Autor: Walber Rodrigues Belo